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The Crown - 4ª Temporada (2020) | Crítica

 


Logo pela manhã, a notícia é que há um cervo ferido dentro das propriedades reais do castelo de Balmoral: é hora da caça. E nada como a analogia do animal ferido dentro de uma atividade esportiva que no final irá terminar empalhado como um troféu em um grande castelo pode definir melhor a terceira temporada de The Crown. A aguardada série da Netflix sobre a Família Real Britânica, dessa vez aborda os acontecimentos que vão de 1979 a 1990 e marca a entrada de duas personagens importantíssimas para a construção da identidade internacional da Inglaterra nos anos 80: A até então, Diana, Princesa de Gales e a Primeira Ministra, Margaret Thatcher. As grandes atuações sempre foram o diamante mais brilhante de The Crown, desde a primeira temporada e aqui não é diferente. Digo mais, este é o ponto alto desde o inicio do show.


Olivia Colman impera como Rainha Elizabeth, dessa vez mais madura e mais decidida no seu papel político como soberana da realeza britânica uma vez que decisões importantíssimas precisam ser tomadas não apenas para com a continuidade do legado Windsor, mas como a mãe da nação diante de um dos períodos econômicos mais complicados da Inglaterra. Polida, fria, por vezes distante e deslocada do seu papel de mãe, mas mesmo assim preocupada com a Inglaterra, a Commonwealth e o lar, Colman entrega uma atuação precisamente certeira. Aqui não há espaço para overreacting, maneirismos e a atriz sustenta com uma performance irretocável que mesmo por vezes“apática” entrega muita alma.


Mas os destaques ficam por Emma Corrin e Gillian Anderson. Corrin encarna Princesa Diana com muita graciosidade e impressiona pela semelhança física e corporal. Apoiada por um roteiro que mostra o radiante lado público e o obscuro escondido (bulimia, infidelidade, insegurança, instabilidade emocional), a atriz consegue com muito louvor humanizar ainda mais a relação de Charles e seu papel na sucessão da coroa, onde não há vilões, apenas pessoas que são peças de um tabuleiro maior e que não podem abandonar o jogo.


Gillian Anderson como Thatcher é nada menos do que magnética. A cada momento que a primeira ministra entra em cena ela rouba os holofotes: cheia de camadas, também vemos um desnudar da imagem da Dama de Ferro. Aqui, o braço forte do partido conservador é vista como a mãe seletiva, a mulher que arruma as malas do marido, que faz questão de cozinhar para seus ministros e que diz abertamente que mulheres são fracas demais para posições de destaque na sociedade, pois são muito emocionais - o grande primeiro choque e embate com Lilibeth.

E rodeando essas três mulheres, a temporada se desenrola mantendo um embate silencioso sobre as três figuras que mantem todos sob seus entornos como coadjuvantes de suas narrativas. Se a Rainha está sempre rodeada de serviçais, Diana é sempre vista sozinha pelos grandes castelos e Thatcher em seu papel de servidão imposta por ela mesma. Sob essa ótica, somos também convidados a entender a dimensão dos personagens que as rodeiam e que são tão profundos quanto.Podemos destacar Anne, Charles e Phillip. Por fim, Helena Boham Carter brilha como Princesa Margareth mais uma vez, com destaque ao episódio ''The HereditaryPrinciple'' cuja série relembra as damas Nerisa e Katherine Bowles-Lyon, esquecidas em um manicômio pela família real por serem neurodivergentes.


Por fim, falar das qualidades técnicas de produção e cinematografia de The Crown é chover no molhado. Sem poupar recursos, cada cenário é uma imersão absurda no status e no universo da realeza. Os figurinos não são replicas exatamente perfeitas, mas acrescentadas de um toque de originalidade que expressam sentimentos, inseguranças, pureza e confronto. Os enquadramentos continuam buscando ostentar brilho e sombra, cores vibrantes e opacas no toque certo e optando sempre por planos abertos com um grande senso de espaço nos membros da realeza e fazendo o oposto aos “pebleus” o que dita muito sobre a diferença de relacionamentos entre os cidadãos e a família real. A logica se inverte com a entrada de Diana que humaniza a realeza e tem mais closes fechados em primeiríssimo plano e primeiro plano.


A quarta temporada de the Crown segue impecável. Desde o roteiro, atuações e aspectos técnicos, a série é muito pontual em ficcionar os acontecimentos reais que permearem os anos 80 continuam até hoje no imaginário popular numa ótica de humanização de pessoas que mesmo detestáveis (Olá, Thatcher e Charles) mostra um motivo plausível para suas ações durante aquele período sem perder o foco na coroa, não apenas da pessoa titular dele, mas do símbolo que une a todos. E para construir a expectativa, o último close fechado no rosto de Diana é um ultimato: Estamos todos ansiosos pela caça na próxima temporada, mas já sabendo do desfecho também sabemos que o cervo ferido dará trabalho.

10/10

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